A Bibliotecária

A caixa de sugestões era um hábito antigo da biblioteca municipal — um relicário de madeira esculpida onde os leitores depositavam pedidos de novos livros, reclamações, ou, ocasionalmente, poemas anónimos. Clara esvaziava-a todas as sextas-feiras, às cinco da tarde, quando o sol entrava oblíquo pelas janelas altas e transformava o pó em poeira estelar.
Naquela sexta-feira, havia apenas um envelope. Branco, sem selo, com o seu nome escrito numa caligrafia que ela não reconhecia. Clara, simples assim, sem sobrenome, como se já fossem íntimos.
Dentro, não havia remetente. Apenas um bilhete, papel de alta gramagem, e uma única frase:
“Hoje, às 18h30, secção de História da Arte. Não uses cuecas.”
Ela riu — um som seco, surpreso, que ecoou no silêncio da biblioteca. Era absurdo, claro. Provavelmente uma brincadeira dos estudantes da faculdade. E mesmo assim, sentiu um calor subir do pescoço para as bochechas, não de vergonha, mas de algo mais antigo, mais perigoso.
Às 18h25, Clara estava na secção de História da Arte. Não usava cuecas.
Ela não sabia explicar por que obedecera. Talvez fosse a monotonia dos últimos meses — o noivo que partira para Londres e nunca voltara, o apartamento vazio, as noites em frente à televisão. Talvez fosse a forma como a frase a fizera sentir-se… vista. Desejada. Viva.
As estantes formavam corredores estreitos, labirintos de papel e couro. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo zumbido distante do sistema de ventilação. Ela fingia examinar um livro sobre Caravaggio quando ouviu passos.
Não se virou. Os passos aproximavam-se devagar, deliberadamente, ecoando no chão de mármore. Quando pararam atrás dela, ela sentiu o calor de um corpo antes de sentir o toque.
“Não te vires,” disse uma voz masculina, baixa, educada, completamente desconhecida.
Uma mão deslizou pela sua cintura, subindo sob a saia — uma saia comprida, de tweed, nada provocante, exceto pela ausência do que deveria haver por baixo. Os dedos encontraram a pele nua e Clara engoliu um gemido.
“Abre as pernas,” ordenou a voz, e havia algo na sua calma absoluta que a fazia querer obedecer.
Ela abriu. Os dedos encontraram-na molhada — embaraçosamente, absurdamente molhada — e começaram a mover-se com uma precisão cirúrgica. Não havia preliminares, não havia ternura. Apenas a busca eficiente, quase científica, do seu prazer.
“Olha para o livro,” disse ele, quando ela tentou virar a cabeça. “Olha para a Susana e os Anciãos. Olha para a forma como ele a olha. É assim que te olho.”
Ela olhou. O Caravaggio mostrava uma jovem desnuda, surpreendida no banho por dois homens idosos. Mas nos olhos dela não havia medo — havia poder. A certeza do seu próprio desejo.
Os dedos aceleraram. Clara agarrou a estante, os nós dos dedos brancos contra o couro dos livros. Ela podia sentir o hálito dele no pescoço agora, quente, ligeiramente acelerado — a única traição da sua compostura.
“Quando vieres,” sussurrou ele, “não faças barulho. Ou então, toda a gente saberá o que és. O que gostas.”
Ela mordeu o lábio até sangrar. O orgasmo veio como uma onda, silenciosa e devastadora, deixando-a tremendo contra os livros, contra a mão dele que ainda a segurava, agora suavemente, quase carinhosamente.
Quando conseguiu virar-se, estava sozinha. No chão, um novo envelope.
Dentro, apenas uma palavra: Quarta-feira. Secção de Poesia. Usa a saia azul.
Clara guardou o bilhete no bolso, junto ao coração. E sorriu.

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