O avião para São Francisco partia às sete da manhã. Sofia olhou para o relógio — onze da noite — e depois para o copo de vinho tinto, quase vazio. A conferência fora um sucesso. A apresentação, aplaudida. O contrato, praticamente garantido. E agora, esta última noite em Lisboa, sozinha no bar do hotel, com vista para o Tejo e uma sensação estranha de… o quê? Incompletação?
“Este lugar está sempre ocupado,” disse uma voz ao lado dela. “Mas tu pareces determinada a beber sozinha.”
Ela levantou os olhos. Ele era alto, mais velho do que ela — talvez quarenta e cinco, cinquenta — com cabelo grisalho nas têmporas e um blazer que não conseguia esconder completamente os ombros de quem trabalhava com o corpo. O sotaque era português, mas suavizado, educado.
“Estou a celebrar,” disse ela. “E a lamentar.”
“Uma combinação perigosa.” Ele sentou-se no banco ao lado, mantendo uma distância respeitosa, mas a sua presença preenchia o espaço. “Posso oferecer-te outro copo?”
Ela deveria dizer não. Tinha um voo cedo, uma reunião na segunda-feira, uma vida em São Francisco que não incluía homens desconhecidos em bares de Lisboa. Mas o vinho era bom, e a noite era quente, e havia algo nos olhos dele — cinzentos, atentos — que a fazia querer ser imprudente.
“Sim,” disse ela. “Mas só se me contares porque estás aqui, sozinho, às onze da noite.”
Ele pediu o vinho — um tinto do Douro, o mais caro da carta, ela notou — e sorriu. Um sorriso torto, com uma covinha que o fazia parecer mais jovem.
“Divórcio recente. Aniversário de casamento hoje. Dezassete anos.” Ele ergueu o copo num brinde silencioso. “Decidi que preferia beber com estranhas bonitas do que ficar em casa a olhar para as paredes.”
Ela sentiu o calor subir — do vinho, ou do elogio, ou da forma como ele a olhava, como se ela fosse a única pessoa no bar.
“Sofia,” disse ela, estendendo a mão.
“Tomás.” Os dedos dele eram quentes, calosos. Mãos de quem constrói ou repara coisas. “E o que é que estás a lamentar, Sofia de…?”
“San Francisco. E não estou a lamentar nada específico. Apenas… a sensação de que deixei algo por fazer aqui. Algo importante.”
Os olhos dele encontraram os dela. O silêncio esticou-se, elástico, carregado.
“O meu quarto tem vista para o rio,” disse ele finalmente. “Não é tão boa como esta, mas… é privada.”
Ela deveria dizer não. Mas em vez disso, acabou o vinho e deixou-o pagar a conta.
O quarto dele estava no décimo andar, pequeno, impessoal, com a cama feita e uma garrafa de água na mesa de cabeceira. Ele não acendeu as luzes — apenas abriu as cortinas, deixando a cidade entrar em tons de âmbar e azul.
“Posso?” perguntou ele, e só então ela percebeu que estava parada no centro do quarto, insegura como uma adolescente.
Ela assentiu. Ele aproximou-se devagar, dando-lhe tempo de recuar, de dizer não. Mas quando os lábios dele tocaram os dela, foi com uma certeza que a fez suspirar. Não havia hesitação, não havia perguntas. Apenas o momento, perfeito e completo.
Ele despiu-a com eficiência, sem pressa, sem frenesim. A blusa de seda. A saia lápis. O soutien, que ele desfez com um movimento praticado que a fez arquear uma sobrancelha.
“Anos de prática,” murmurou ele contra o seu pescoço. “Infelizmente.”
Ela quis perguntar sobre o divórcio, sobre a mulher, sobre o que acontecera. Mas depois os dedos dele encontraram o centro dela, e ela esqueceu as perguntas.
Ele a deitou na cama, ainda vestido, e fez-lhe amor com a boca primeiro. Lento, metódico, quase reverente. Ela agarrou os lençóis, arqueou as costas, tentou silenciar os gemidos, mas ele não a deixou.
“Quero ouvir-te,” disse ele, a voz abafada contra a sua pele. “Quero saber que estou a fazer isto bem.”
Ela riu — um som estrangulado, híbrido de prazer e incredulidade. “Estás… estás a fazer isto muito bem.”
Quando ele finalmente se despiu, ela viu que o corpo correspondia às mãos — musculoso, marcado, real. Nada do ginásio perfeito dos homens de São Francisco. Este era um corpo que trabalhara, que vivera, que falhara e recuperara.
Ele entrou nela sem proteção — um risco, ela sabia, mas estava tomada pela pílula, e havia algo na intimidade daquele ato que a fazia querer sentir tudo. Cada centímetro. Cada pulsação.
Eles moveram-se em sincronia, como se já o tivessem feito mil vezes. Ela de costas, depois por cima, depois de lado, os olhos dele sempre nos dela, mesmo no escuro. Ele não a deixou vir sozinha — segurou-a, controlou-a, levou-a até à beira e deixou-a cair apenas quando ela já não aguentava mais.
Depois, deitados de costas, ofegantes, ela disse:
“Não quero saber nada sobre ti. Não quero o teu número. Não quero o teu Instagram. Só quero… isto. Esta noite.”
Ele ficou em silêncio por um momento. Depois, virou-se e beijou-a na testa, um gesto estranhamente terno para o que eram.
“Então deixa-me fazer-te café de manhã,” disse ele. “Antes do teu voo. Sem perguntas. Sem promessas.”
Ela sorriu no escuro. “Pode haver torrada?”
“Pode haver tudo o que quiseres.”
Ela adormeceu no seu peito, ouvindo o coração dele, e pela primeira vez em meses, não pensou em San Francisco.