O Ritual da Meia-Noite

O relógio da sala de jantar bateu doze vezes quando ele finalmente fechou a porta. O apartamento estava mergulhado numa penumbra dourada — ela havia acendido dezenas de velas, transformando o espaço num santuário de sombras tremeluzentes.
“Estás atrasado,” disse ela, emergindo do quarto. O quimono de seda que usava — um presente de Tóquio que ele lhe dera no aniversário — deslizava sobre a pele como água, revelando e escondendo na mesma medida.
“O trânsito,” mentiu ele, sabendo que ela sabia. O atraso fora deliberado. Parte do jogo que inventavam há três anos, desde que se conheceram naquela galeria de arte em Alfama.
Ela aproximou-se, descalça, e ele sentiu o perfume — não o habitual, mas algo novo. Madeira de sândalo misturada com algo mais escuro, mais terroso. Shunga, reconheceu. O óleo que haviam comprado juntos naquela loja discreta de Setúbal, escondido numa sacola de papel pardo.
“Fiz-te uma surpresa,” sussurrou ela, e os lábios tocaram o lóbulo da sua orelha. “Mas primeiro, tens de me encontrar.”
Ela afastou-se antes que ele pudesse agarrá-la, e o quimono caiu no chão com um som surdo de seda. Sob ele, apenas a pele. Ele nunca se habituara à ousadia dela — a forma como se movia pela casa como se fosse dela, completamente, sem vergonha nem artifício.
Ela desapareceu no corredor. Ele tirou o casaco, a gravata, a camisa, deixando um rastro de roupa civilizada pelo chão de madeira. Quando entrou no quarto, estava escuro, salvo por uma única vela na cabeceira.
“Deita-te,” ordenou ela, da escuridão. “De bruços.”
Ele obedeceu. A cama estava aquecida — ela havia deitado ali antes, deixando a sua marca no lençol. Quando ela se sentou sobre ele, os joelhos apertando suavemente os seus flancos, ele sentiu o calor antes de sentir o toque.
O óleo veio primeiro — frio, chocante, depois rapidamente aquecido pela fricção das suas mãos. Ela começou nos ombros, trabalhando os nós de tensão acumulados durante a semana, mas logo desceu. A espinha. A curva das nádegas. As coxas.
“Viras-te,” disse ela, e não era um pedido.
Quando se virou, ela estava nua, brilhante com o óleo que já usara em si mesma. Os seios, geralmente pálidos, tinham um tom dourado à luz da vela. Ela desceu sobre ele, não com pressa, mas com a deliberada lentidão de quem sabe que o tempo é o melhor afrodisíaco.
“Não toques,” disse ela, agarrando os seus pulsos e prendendo-os acima da cabeça numa mão só. A outra mão desceu, encontrando-o pronto, duro, impaciente. “Ainda não.”
Ela usou o óleo — o mesmo que ele sentira no ar — para lubrificar a palma da mão. O toque foi elétrico, contrastando com a suavidade anterior. Ela conhecia o ritmo dele, os pontos exatos, a pressão perfeita. Mas parava sempre antes, deixando-o suspender na beira do abismo, até que ele gemesse, frustrado, desesperado.
“Só quando eu disser,” sussurrou ela, e ele sentiu o seu hálito quente na boca do estômago.
Quando finalmente o deixou entrar nela, já estava tão excitado que o prazer foi quase dor — aquela linha ténue que ambos adoravam pisar. Ela movia-se em círculos lentos, controlando cada centímetro, cada sensação. As velas chamejavam. O óleo criava sons obscenos, deliciosos, de pele contra pele.
Ela veio primeiro — sempre vinha primeiro, orgulhava-se disso — e a contração dos músculos dela em torno dele foi o sinal que ele esperava. Solto os pulsos, agarrou-a pela cintura, e deixou-se ir.
Depois, deitados no escuro, com o cheiro do sândalo impregnado na pele, ela disse:
“Amanhã, compramos mais óleo.”
Ele riu, ainda sem fôlego. “Já temos três frascos.”
“Precisamos de mais,” insistiu ela, a mão a desenhar círculos preguiçosos no seu peito. “Quero experimentar o de framboesa. Dizem que é para comer.”
Ele virou-se, beijando-a com gosto de sal e promessas. “Então comer-te-emos.”
A vela apagou-se sozinha. Eles não repararam.

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